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As antologias pós-steampunk da Divergência

por Flávio Gonçalves, em 27.04.20

A Editorial Divergência nasceu em 2013 e desde então tem publicado volumes que muito sinceramente nunca julguei ver em Portugal com uma frequência e uma qualidade aparentemente excepcionais (digo aparentemente, porque ainda não os li a todos), favorecendo a ficção especulativa da autoria de escritores portugueses. Conta já com uma vintena de títulos, entre eles antologias como Winepunk, Almanaque Steampunk 2019, Os Monstros Que Nos Habitam, Por Mundos Divergentes ou Proxy - Antologia Cyberpunk.

Em pleno isolamento social a Divergência tem actualmente a decorrer vários concursos para a publicação de três antologias que derivam de universos pós-steampunk, nomeadamente hopepunk, dieselpunk (podem submeter os vossos manuscritos para ambos até 31 de Julho) e solarpunk (cujos textos devem ser enviados até 31 de Agosto). Ei-los:

FAROL DE ESPERANÇA

Quando tudo parece perdido, aparece o Hopepunk.

Hopepunk é uma narrativa guiada pela esperança. Um raio de luz, fruto dos tempos incertos em que vivemos.

Nós, escritores, tornamo-nos guerreiros. Lutamos pelo que acreditamos ser o melhor. Resistimos à tendência para o caos. Caímos, levantamo-nos e continuamos a acreditar. A esperança guia-nos, tal como o Sam guiou o Frodo.

Ser-se Hopepunk não é gostar de vídeos de gatinhos nem ver o mundo através de um filtro cor-de-rosa. Somos inerentemente bons. Mas também corajosos e assertivos.

Ser-se Hopepunk é usar a esperança como arma política. Ser gentil é a maior força. Enfrentamos o mundo com bondade. 

Pode consultar o regulamento aqui.

UM LEVE CHEIO A DIESEL

O Dieselpunk caracteriza-se por um predomínio do diesel na sociedade futurista dos anos 40 e 50. Primo mais novo do Steampunk, olha para a sobrevivência como o objetivo principal, numa sociedade desfeita por duas guerras mundiais e pelo advento da bomba atómica.

Pode consultar o regulamento aqui.

UM PASSO AO AMANHECER

Fortemente inspirado no Steampunk, o subgénero Solarpunk explora os temas de sociedades dominadas pelas energias renováveis (entre elas, a solar), fruto da esperança de um futuro melhor para a humanidade, onde a tecnologia é usada a favor dos humanos e das suas necessidades ambientais.

Ao invés da distopia, surge a utopia. O crescimento das comunidades locais, a harmonia entre as pessoas e a habitabilidade sustentável permite que este género literário aborde um futuro cheio de esperança, longe dos inimigos do progresso, tais como governos corruptos e grandes empresas capitalistas.

As histórias Solarpunk procuram incluir, tipicamente, a estética e a cultura africana e asiática, afastando-se da imagem ocidentalizada ao qual o nosso mundo se vai adaptando cada vez mais. Sob uma luz optimista, os principais temas deste subgénero centram-se na justiça social, anti-colonialismo, ecologia social, progresso social e tecnológico e pós-humanismo, entre outros.

Pode consultar o regulamento aqui.

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publicado às 07:00

Onde estão os livros, ó jornais?

por Flávio Gonçalves, em 26.04.20

Recordo-me de quando começaram os blogues literários, quando os leitores começaram a partilhar o que gostavam de ler, o que estavam a ler, os blogues temáticos por género que se focavam na ficção científica e na fantasia eram os meus favoritos. Mais tarde vieram as parcerias com as editoras, e era um complemento interessante à crítica literária numa altura em que as publicações literárias (LER, Os Meus Livros, Jornal de Letras) publicavam mais peças de opinião do que entrevistas e notícias sobre livros, mas tudo isto complementava o prato forte que eram as resenhas, sugestões e divulgação literária nas secções de cultura nos jornais do mainstream.

Esta semana fiz um pequeno exercício, consultei as secções de cultura dos Público, Diário de Notícias, Expresso e Jornal de Notícias e, meus amigos, o panorama não é bom! Certo, o Ípsilon do Público e o Companhia dos Livros do JN ainda tratam de livros, mas a realidade do meio editorial português em 2015 era esta: editavam-se 33 (trinta e três) livros POR DIA em Portugal, era essa a média em 2015 e em 2020 com o crescimento da oferta das gráficas digitais, que permitem tiragens pequenas, suspeito que será agora maior. Creio que qualquer leigo compreenderá que realmente o espaço dedicado aos livros na comunicação social (dez livros por semana, se tanto?) é irrelevante.

Tendo isto em mente, compreende-se que a maior parte das editoras estejam receptivas a colaborar com blogues como este, com páginas nas redes sociais que tratem de livros e, estou certo que essa realidade já exista embora ainda não tenha grande conhecimento quanto à mesma, com podcasters e youtubers que tratem de livros. Na última década a (moribunda) blogosfera e as redes sociais tornaram-se praticamente nas únicas ferramentas à disposição dos editores para chegarem aos seus potenciais leitores, os jornais estão aqui a falhar na elevação intelectual da maior parte da população que ainda os compra...

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publicado às 10:37

Dispatches From Elsewhere

por Flávio Gonçalves, em 25.04.20

Fiquei maravilhado com o primeiro episódio do "Dispatches From Elsewhere" no AMC (não entendo porque se deixou de traduzir títulos de séries). Tão bom que o devo rever no serão de hoje, e creio que nunca fiz isso com uma série antes, ver duas vezes o primeiro episódio. Vejamos se não a estragam. Ainda não fui ver quem foi o argumentista deste primeiro episódio, mas há ali uma verdade universal na qual nem tinha sequer pensado antes; todos ansiamos secretamente que um dia alguém nos diga: houve um erro, tu não pertences aí, a tua vida não é essa, vem e junta-te aos especiais!

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publicado às 11:57

NãoHaPlanetaB.jpg

Aproveitando o Dia da Terra (22 de Abril) resenhamos aqui a obra “Não Há Planeta B” da autoria de Carmen Lima, coordenadora do Centro de Informação de Resíduos da Quercus e fundadora do SOS Amianto, aproveitamos a ocasião para entrevistar a autora. “Não Há Planeta B” foi editado pelas Edições Chá das Cinco.

Carmen Lima é coordenadora do Centro de Informação de Resíduos da Quercus e coordenadora fundadora do SOS AMIANTO – Grupo de Apoio às Vítimas de Amianto. Trabalha a temática dos Resíduos, das Políticas de Prevenção da produção de resíduos, o conceito da Economia Circular e o tema do Amianto. Iniciou a carreira profissional em 1999, na área da Gestão de Resíduos. É licenciada em Engenharia do Ambiente, pós-graduada em Gestão Ambiental e em Construção Sustentável, e mestre em Planeamento e Construção Sustentável.

Encontra-se a realizar o doutoramento em Engenharia do Ambiente no IST. Tem participado como oradora e moderadora em diversas conferências, seminários e audições em Portugal, no Brasil, em Cabo Verde, na Polónia, na Bélgica e nos EUA. Foi responsável pela apresentação da rubrica «Querido Ambiente» do programa Queridas Manhãs da SIC.

Na sua obra destaca o problema em que se tornará o acesso à água potável, prevê que no futuro decorram guerras pela água, do mesmo modo que no século XX as houve pelo acesso às reservas de petróleo?

CL: Serão as batalhas deste século, a luta pelo acesso a água de qualidade. Muitos países vivem diariamente uma angústia pelo acesso a água em boas condições de salubridade, sem a mesma expõem a sua população a doenças e pragas, enquanto outros desperdiçam de forma abusiva este recurso, quer nas práticas diárias (banhos, lavar os dentes, lavar as mãos) e por más políticas de gestão de água (com perdas na rede e rega em períodos de maior calor/chuva). Não quero com isto dizer que não se deva tomar banho, lavar os dentes, lavar as mãos regar os jardins. É importante retermos que a “Água” é um bem da Humanidade e que não é um recurso particular em que cada um usa como quer, há princípios que devemos respeitar e um deles é o uso sustentável deste recurso.

Sendo Portugal uma nação costeira, não devíamos estar já a ponderar investir em centrais de dessalinização para a obtenção de água potável e centrais hidrocinéticas (energia das ondas) para criação de energia renovável?

CL: Portugal possui reservas de água potável, o problema é que em muitas regiões estas reservas estão ameaçadas pela poluição. As regiões insulares estão mais limitadas, e as centrais de dessalinização poderão ser uma solução viável para a falta de água, sabendo que a mesma se for sujeita a este processo irá sofrer um agravamento do seu preço, daí a importância da gestão sustentável deste recurso, para que não falte no futuro. Sempre que hajam condições favoráveis à implementação de mecanismos que aproveitem os recursos naturais para a produção de energia limpa, os mesmos deverão ser implementados, é um investimento para o futuro da descarbonização em Portugal. Temos locais que pelas suas características são muito favoráveis e este tipo de investimentos.

Na Cimeira do Clima de Dezembro de 2019, 77 países comprometeram-se a reduzir as emissões dos gases com efeito de estufa até 2050, portanto daqui a 30 anos. Não será isto sinal da morosidade burocrática que demora a aplicar iniciativas consideradas urgentes, exasperando adolescentes como Greta Thunberg? Não estaremos meramente a empurrar com a barriga, adiando as soluções para daqui a décadas ou séculos, quando provavelmente será demasiado tarde?

CL: Nas sucessivas Cimeiras do Clima verificámos que houve avanços e recuos de países relativamente às políticas de prevenção da poluição e redução dos GEE (Gases com efeito de estufa). Parece uma tarefa árdua juntar estes países e promover um compromisso, que em termos temporais está sempre a ser adiado em função do desenvolvimento económico. Curiosamente, um pequeno ser microscópico conseguiu em 2020 parar o Mundo, cessando fábricas, diminuindo a circulação automóvel e aérea e levando a população ativa a adotar novos hábitos de vida e de trabalho, mais suaves e com menos impactes ambientais. A sociedade teve que se reinventar por questões de saúde, de um dia para o outro, e devemos aproveitar este período para repensar os nossos hábitos de vida e as nossas políticas ambientais (local, nacional e internacional). Provavelmente andámos a empurrar estas decisões ambientais com “a barriga” mas na realidade até conseguiríamos implementar mais cedo caso considerássemos que era uma urgência climática ou planetária.

Refere no seu livro a necessidade de podermos consertar electrodomésticos que há décadas duravam quase uma vida e actualmente duram apenas dois anos ou pouco mais, tal não implicará duras leis contra a obsolescência programada?

CL: Esse é um conceito que os fabricantes dos electrodomésticos recusam, no entanto o que se verifica nesta época é que os nossos equipamentos duram pouco mais que o tempo da garantia. Quando procuramos reparar não conseguimos, ou porque não existem peças ou porque as mesmas têm preços exagerados, chegando à conclusão que fica quase ao mesmo preço arranjar um electrodoméstico ou comprar um novo, e isto não pode continuar. As políticas europeias já apontam para a obrigatoriedade dos fabricantes assegurarem que os equipamentos têm a oportunidade de serem reparados quando avariam, e isso é fundamental. Não podemos continuar a viver numa sociedade do descartável, em que compramos, usamos e deitamos fora. O Planeta não aguenta tanto lixo.

Aproveitando o seu alerta no que toca ao consumo de energia doméstica, será seguro afirmar que todos os electrodomésticos comuns como microondas ou máquinas de lavar roupa consomem energia mesmo quando não estão a ser utilizados?

CL: Estando ligados à corrente há sempre uma passagem, mínima que seja, de corrente eléctrica. É nesse sentido que em muitas situações é recomendado o uso de mecanismos que permitam cortar a passagem de corrente eléctrica, para anular este efeito, quando não podemos desligar o electrodoméstico da tomada, como por exemplo de um televisor.

CarmenLimaNormal.jpg

Considera que a real implantação da Economia Circular estará mais dependente do poder autárquico que do poder central?

CL: A implementação da Economia Circular terá que ser realizada de uma forma consistente e é importante que seja incentivada quer pelo poder local quer pelo poder central, através de políticas e incentivos que promovam a mudança nas empresas e nos serviços. Para que mudemos o paradigma económico em Portugal, as questões ambientais terão que ser integradas nas escolhas e nas estratégias das organizações, fomentando as escolhas mais sustentáveis e com menor impacte ambiental.

Quanto às medidas que começamos a ver aplicadas, a troca do plástico pelo papel não incentivará ou agravará o problema da desflorestação, para o qual também alerta?

CL: Não é correto a troca de um material descartável por outro material descartável. A solução passa por reduzirmos o uso destes produtos e limitarmos a sua utilização para as utilizações em que temos que recorrer necessariamente a este tipo de materiais, como por exemplo em meio hospitalar. Por outro lado optarmos por materiais reutilizáveis no nosso dia-a-dia, tal como fazíamos em outros tempos.

As medidas que sugere no seu livro são perfeitamente racionais e aplicáveis com um grau mínimo de esforço, mas o facto de a tecnologia nos ter tornado uma sociedade hedonista e indolente será uma das causas que dificulta a adopção de medidas tão simples como despender uns minutos extra para cortar a nossa própria fruta ou reciclar o nosso lixo?

CL: Tornámo-nos numa sociedade de consumo, em que procuramos produtos prontos a serem consumidos, muitas vezes sem querer perder tempo a descascar a nossa fruta ou a separar o nosso lixo para a reciclagem. Mas não podemos continuar neste formato, teremos que ser proativos e participativos numa ecologia do quotidiano que torne a nossa sociedade mais evoluída.

A indústria automóvel que está actualmente a investir imenso na criação baterias a lítio mais duráveis não estará meramente a trocar um combustível fóssil finito por uma opção mineral, também ela finita?

CL: Este é aquele tema que na atualidade está em constante mudança, o que hoje é verdade amanhã pode já não ser, e em que na realidade não há uma solução perfeita. Continuamos a acreditar que precisamos de descarbonizar a economia e os nossos transportes, e acreditamos que no futuro essa opção passe pelo recurso ao hidrogénio. Mas enquanto não chegamos lá, as soluções que nos são apresentadas não são isentas de impactes e, na minha opinião, não são soluções limpas.

Noto que muitas pessoas ainda não se aperceberam que quando falamos de extinção em massa de 75% das espécies da Terra, estamos a falar da nossa própria extinção. Não julga que seria mais útil ao movimento ambientalista tentar passar esta mensagem? Afinal não é a Terra que vai morrer se nada mudar, somos nós!

CL: Essa mensagem tem vindo a ser divulgada em muitas campanhas de sensibilização ambiental, que mostram que nós poderemos ser a próxima espécie a entrar em extinção. Não é o Planeta que terá um fim, mas sim a espécie humana. Assim, como o tema das alterações climáticas em que os ambientalistas levaram anos até serem ouvidos e considerados, nesta temática continuamos a assistir a um silêncio mudo em que ninguém quer aceitar e acreditar nesta teoria.

Considera que seria útil a inclusão de um programa de consciência ambiental no currículo das aulas de Educação para a Cidadania? Não seria talvez a ferramenta mais útil para alertar e formar as próximas gerações?

CL: É fundamental integrar a educação ambiental de forma transversal no ensino em Portugal, desde o 1.º ciclo até aos cursos universitários, em que o tema ambiental e as suas abordagens serão adotadas de acordo com a idade e área de estudo. Não é de excluir também o ensino sénior, em que as gerações estão sensíveis aos impactes ambientais e na saúde.

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publicado às 12:56

Republicação de "Relatório Sobre o Fenómeno OVNI"

por Flávio Gonçalves, em 23.04.20

Há coisa de uma década fui editor, depois aconteceu o demasiado típico problema das maiores cadeias de livrarias nos exigirem um distribuidor por ser demasiado caótico aceitar colocação directa por parte dos editores e, claro está, depois o distribuidor fugir com o dinheiro das vendas e termos de fechar a empresa. Perdi assim as poupanças, um empréstimo adicional que ainda estou a pagar passados 11 anos, uma editora com dois sucessos de vendas e vários autores best seller já contratados teve que fechar e fiquei com um certo rancor que volta e meia gosto de manifestar nas redes sociais e nos blogues.

Dito isto, a semana passada descobri que um dos nossos sucessos de vendas estava a ser vendido na Amazon por livrarias brasileiras ao módico preço de 148 dólares (137€), o que é bizarro uma vez que as sobras dessa edição (devoluções das livrarias) continuam disponíveis na Wook por uma dezena de euros. Assim sendo, e uma vez que encontrei os ficheiros da edição original num imenso limbo do Gmail, submeti os mesmos à ferramenta de impressão digital da Amazon e esta já se encontra à venda nos EUA, Brasil, Alemanha, Itália, Reino Unido e onde houver portais da Amazon pela bem mais simpática quantia de 16€.

Como o KDP Direct da Amazon absorve o preço de venda quase todo, sobram menos de 3€ de lucro em cada exemplar vendido e estes revertem para a manutenção da revista Libertária, que por sua vez patrocina desinteressadamente projectos jornalísticos independentes como a Shifter, o Fumaça ou o Perguntar Não Ofende. Portanto, vá à sua Amazon favorita e, se o tema lhe interessar, encomende um Relatório Sobre o Fenómeno OVNI de Edward J. Ruppelt.

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publicado às 08:56

O estigma da literatura juvenil

por Flávio Gonçalves, em 22.04.20

Sempre me senti atraído por literatura juvenil (aquilo que no estrangeiro apodam de young adult), talvez por aí abundar a temática da fantasia, terror e ficção científica - os críticos elitistas dirão que tal prova a infantilidade destas temáticas, mas de acordo com um estudo efectuado em 2012 e já ressuscitado pelo Guardian em 2015 e pela Atlantic em 2018 mais cerca de 55% dos leitores de literatura juvenil são adultos. E aproveito para recordar que a trilogia O Senhor dos Anéis na sua altura tinha por alvo o público infantil.

Que quer isto dizer? Pessoalmente sou adepto de que a literatura juvenil ainda inclui no seu cerne uma capacidade de sonhar que a maior parte das pessoas comuns acaba por perder devido às vicissitudes da vida e que esta quanto mais antiga for mais profunda, é devido ao fenómeno comprovado de emburrecimento geral da população mundial: Tolkien hoje é lido por eruditos, no seu tempo o que escrevia tinha por público alvo as crianças. 

Aliás, tendo sido crítico literário quando passei pela redacção do O Diabo, tanto quanto a compatibilidade política o permitiu, recebi dezenas de obras de ficção cujo público alvo eram, e são, adultos e posso garantir-vos que muitas vezes as obras que os vossos filhos leem têm uma profundidade e uma maturidade filosófica muito superiores a uma imensidão de literatura que por aí anda a encher prateleiras de livrarias e hipermercados e que só serve para chacinar árvores e contribuir para o dito emburrecimento global. E dito isto, vou espreitar as obras de João Aguiar e colocar a jeito os primeiros dois volumes de Haven de Simon Lelic, que a Porto Editora editou finalmente entre nós.

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publicado às 12:58

"Não Há Planeta B" - Carmen Lima

por Flávio Gonçalves, em 21.04.20

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Goste-se ou não, graças a Greta Thunberg o debate acerca das alterações climáticas entraram no léxico de todos os dias e figuram actualmente nos programas de todos os partidos, é portanto numa excelente altura que as Edições Chá das Cinco publicam este atractivo volume, “Não Há Planeta B” da autoria de Carmen Lima, coordenadora do Centro de Informação de Resíduos da Quercus e fundadora do SOS Amianto.

Ao pegar neste livro julguei que provavelmente estaria a lidar com mais uma obra apocalíptica como tantas que têm chegado ao mercado nos anos mais recentes, mas na realidade trata-se de uma obra de esperança que faz completamente jus ao seu subtítulo, “Dias e Truques Para um Ambiente Sustentável”.

Ao longo de 200 páginas Carmen Lima alerta-nos para o que se encontra actualmente a decorrer, para o que eventualmente irá ocorrer ao planeta e a todos nós se as coisas não mudarem e, a cereja no topo do bolo, apresenta-nos um autêntico manual de acção sobre como podemos, todos nós, afectar os efeitos mais nocivos que poderão levar a uma nova extinção em massa por intermédio de meras alterações comportamentais no nosso quotidiano.

E tudo isto numa escrita extremamente apelativa e acessível, sem léxico apocalíptico ou extremista a autora consegue expor qual o problema com o qual estamos a lidar e várias opções possíveis para que o possamos resolver. Para terem ideia, consegui ler as 200 páginas num único dia (a minha folga, é certo) sem me entediar ou enfastiar com a terminologia.

Creio que boa parte se deve também ao grafismo adoptado, onde os temas não só são abordados em vários blocos temáticos como também ponto a ponto, tornando também fácil a sua consulta após a leitura como manual de boas práticas sempre que formos às compras, quisermos planear as férias, saber qual a fruta da época e o modo mais ecológico de gerir o nosso tempo.

Desde que deixei de fazer resenhas em páginas de jornais em papel de modo consecutivo e planeado que abandonei a pontuação que por norma se aplica aos livros resenhados, mas este teria certamente cinco estrelas. Está de parabéns Carmen Lima pelo conteúdo, bem como Ana Passos Nascimento e Luís Morcela pelo sublime trabalho com o design da capa, que verdade seja dita foi o que inicialmente me atraiu para a obra.

Sinopse

Está nas nossas mãos ajudar a mudar o rumo do Planeta. E se é verdade que as grandes mudanças conjunturais são fundamentais para garantir a continuidade da espécie humana, igualmente importantes são as medidas adoptadas por cada um de nós. Reduzir o consumo de recursos, aumentar a eficiência energética e o recurso a energias renováveis, optar por sistemas de mobilidade suave ou adoptar a política dos 5R na gestão dos nossos resíduos urbanos são pequenos gestos que nos tornam mais responsáveis em termos ambientais.

Mas, para reduzir a pegada ambiental, o mais importante é estarmos preparados para pensar, comprar e até comer de forma diferente. Porque todos os pequenos gestos são importantes, como a produção deste livro em papel reciclado.

Sobre a Autora

Carmen Lima é coordenadora do Centro de Informação de Resíduos da Quercus e coordenadora fundadora do SOS AMIANTO – Grupo de Apoio às Vítimas de Amianto. Trabalha a temática dos Resíduos, das Políticas de Prevenção da produção de resíduos, o conceito da Economia Circular e o tema do Amianto. Iniciou a carreira profissional em 1999, na área da Gestão de Resíduos. É licenciada em Engenharia do Ambiente, pós-graduada em Gestão Ambiental e em Construção Sustentável, e mestre em Planeamento e Construção Sustentável.

Encontra-se a realizar o doutoramento em Engenharia do Ambiente no IST. Tem participado como oradora e moderadora em diversas conferências, seminários e audições em Portugal, no Brasil, em Cabo Verde, na Polónia, na Bélgica e nos EUA. Foi responsável pela apresentação da rubrica «Querido Ambiente» do programa Queridas Manhãs da SIC.

Ficha Técnica

Editora: Chá das Cinco
Encadernação: Capa Mole
Páginas: 208
Preço: 15,50€ (Wook)
ISBN: 9789897103612

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publicado às 19:46

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Flávio Gonçalves

Crítico dito literário "cadastrado" junto de várias editoras desde 2010, tradutor, revisor e editor nos tempos livres. Actualmente resenho livros e entrevisto autores na edição portuguesa do Pravda.ru dando preferência a obras de não ficção, ficção científica, banda desenhada e ficção especulativa. Escrevo sobre política no Autarcias. #livrosamesa

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